Histórias

"(...) O pior que há para a sensibilidade é pensarmos nela, e não com ela. Enquanto me desconheci ridículo, pude ter sonhos em grande escala. Hoje que sei quem sou, só me restam os sonhos que delibero ter. (...)" - Fernando Pessoa

11.11.05

Valsinha

"... À hora combinada toquei-te à porta. Tinhamos acordado um jantar por causa daquele jogo renhido de snooker. Apesar de tudo dei-te luta.
Enquanto preparava o jantar - o Tagliatelle Bolognese que te tinha prometido - serviste-nos dois copos de Monte Velho. Brindámos ao que era apenas um pretexto para afastar as carências de relacionamentos já gastos.
O que falámos naquela noite parecia impossível para quem se conhecia há 8 ou 9 anos. Foi como se nos reencontrassemos depois de uma ausência prolongada; as palavras saíam com sofreguidão e aos atropelos.
O café, tomámo-lo a mexericar nos vinis antigos que me quiseste mostrar como quem revela um tesouro; os olhos a brilhar em cada uma das histórias que lhes associavas. Escolheste um disco e dele, uma música. Sentados no chão, no escuro da noite, ouvimos o Chico a "sussurrar" a "Valsinha":
"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita com há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços com há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E alí dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"
Num silêncio cúmplice e guardador de segredos, deixámo-nos levar até onde o coração permitiu...".
M.